O Beijo Do Sapo

Publicado em Desenvolvimento Pessoal, Recursos Marketing de Rede

Há muitas empresas que são geridas de cima para baixo: quem está acima na hierarquia tem todas as respostas e quem está abaixo não tem nenhuma, limita-se a executar ordens.

Isso acontece nas empresas de cultura atrasada, que não sabem valorizar o melhor activo que têm: as pessoas. Essas organizações crescem até terem o tamanho dos seus líderes e nunca irão além disso. Como um homem nunca tem mais de 1,5 m a 2m, esse é o tamanho, em valor, de uma organização desse tipo.

Porque é que falo de organizações e de valorização do seu capital humano num blog de marketing de rede? Porque todas as filosofias e práticas têm origem na mente de alguma pessoa. E, no marketing de rede, temos líderes que constroem organizações e que repassam para essas organizações as suas filosofias de vida.

Em rigor isso nada tem de errado, excepto pelo facto de tu, quando aderes a uma oportunidade de marketing de rede, raramente sabes seja o que for acerca da qualidade humana e empresarial da liderança do grupo ao qual estás a aderir. Por isso é que este post se torna tão importante. Precisas tentar perceber qual a liderança que tens, se é ética, profissional, focada nas pessoas, e se tem métodos de acção com os quais te identificas e se têm sempre razão, sempre tudo e se pedem ou não o input de pessoas sem pin nem cheque, mas com conhecimento e experiência.

No marketing de rede somos todos empresários independentes. E há sempre, em todos os grupos, aquelas pessoas mais simples, por vezes sem instrução formal, com um vocabulário, uma forma de falar, de vestir e de estar diferente do que seria suposto num ambiente empresarial. Quando têm resultados e geram dinheiro, são considerados exemplos inspiradores. Quando não têm resultados, são praticamente transparentes nos eventos, ou, quando muito, são tratados com paternalismo e condescendência. São os “sapos” no meio de “humanos”.

Não sei se já viste isto acontecer na tua equipa, eu via-o com frequência. Via e ainda vejo de vez em quando, numa reunião deixarem uma pessoa simples do grupo a falar sozinha. Num jantar de fim de evento a conversa animada dos líderes abafarem e cortarem a palavra da pessoa simples que tem de se calar. Vi também em reuniões de grupo essas pessoas pedirem a palavra, deixarem-na falar e prosseguir como se nada tivesse sido dito, ou humilharem essa pessoa dizendo que não sabe o que diz, ou que se não tem cheque não tem opinião, ou, pior ainda, olharem para a mão no ar e fazerem de conta que não a viram.

Eu assisti a estas coisas ao longo da minha história no marketing de rede. Por isso fui mais esquisito na escolha da liderança na empresa em que estou agora e faço questão de fazer do meu grupo um exemplo de boas práticas empresariais em que toda a gente tem uma palavra a dizer, e onde ninguém é medido nem pelo cheque nem pelo volume nem pelo pin.

Hoje escrevo este post porque recentemente uma pessoa do  meu grupo, uma pessoa simples, trabalhadora, mas sem estudos, sem vocabulário bonito, com sotaque de um aldeão de interior, me ensinou uma lição tremenda.

Ele está há alguns meses no negócio, contra a vontade de toda a família. A esposa arranja forma de lhe pedir coisas sempre que está a trabalhar no projecto e faz questão de o fazer sentir-se culpado se ele não lhe der assistência imediata e incondicional. Tem uma tenacidade impressionante. Como não é uma pessoa credível no seu meio, ele fala com as pessoas, liga-lhes e ninguém o leva muito a sério. Algumas pessoas mais próximas gozam com ele.

No plano de acção que desenhámos, ele e eu, temos explorado diversas alternativas, muitas e variadas abordagens às pessoas da lista, técnicas de prospecção e de convite diferentes, evidentemente usamos a Internet, primeiro com um tipo de acção adequada às suas capacidades, gostos e necessidades, mas depois abrindo o leque de opções para ele adquirir mais competências.

A verdade é que passaram alguns meses e ele não inscreveu ninguém. Perguntei-lhe se estava desanimado e se queria atirar a toalha ao chão, amigos como dantes. A resposta dele mostrou o líder que está lá dentro e que se foi desenvolvendo enquanto ia atravessando tantas dificuldades:

“Desistir? E vou fazer o quê? Vou dar razão a essa gente toda que se ri nas minhas costas e à minha mulher que me atira à cara que nunca serei ninguém na vida? Tu foste o  único até hoje que acreditou em mim e que perde o seu tempo para me ajudar.”

E logo a seguir continuou:

“Diz-me o que fazer, se não der de uma forma, a gente experimenta de outra, e se não der dessa a gente arranja outra e outra, até dar.”

Esta não é uma história de sucesso, mas de endurance. É fácil olhar para trás e fazer o bonito depois de termos resultados, as dificuldades ficam romanceadas, e nós somos os heróis. Mas quando estamos metidos no meio da noite escura é preciso uma alma muito grande, de um verdadeiro líder, para ver o pinhal no pinhão.

Eu fiquei feliz. Estando com ele, ombro com ombro nas dificuldades, apontei-lhe para uma saída fácil e ele decidiu não a aceitar. Eu fiquei uma pessoa melhor com o seu exemplo e penso em tanto valor desperdiçado pelos líderes por não se darem ao trabalho de passar tempo ombro com ombro com as suas organizações, não lhes darem ouvidos, não os desafiarem a superarem-se.

O que irá acontecer com o negócio dele? E com o meu? Não sei, mas sei que, por algum motivo o lema do meu grupo é: “Primeiro Desenvolvimento Pessoal, depois Contribuição Social e finalmente, como resultado das anteriores: Independência Financeira”.  Também recordo com saudade  Jim Rohn que dizia frequentemente: “O que importa não é o quanto dinheiro tu ganhas hoje, mas a pessoa em que te transformaste no processo”.

A história da princesa e do sapo ganhou um significado novo:

“Um dia, um sapo beijou uma pessoa comum e transformou-a em realeza.”